sexta-feira, 13 de agosto de 2004

A Tasca do Carrasco


Ainda sobre a tasca do meu amigo Carrasco, local que enquanto tiver memória nunca esquecerei, sempre que regressava ao meu ninho, tinha uma visita obrigatória à Tasca.

Ali recebia os abraços da gente da terra que tropeçava em mim e isto, porque eu nunca dizia que ia - apenas, chegava! Ali se bebiam uns copos, era preciso não quebrar a tradição e ali eu revia parte da família, pois o Carrasco era casado com uma minha prima direita e, portanto, era meu primo.

Era ele que tinha o Correio, era ele que tinha o telefone, e era ele que recebia e enviava as boas e as más notícias para todo o Mundo, notícias que tinham a ver com a nossa terra e as suas gentes!

A sueca

Esta é a porta da saudade, qe nos mata a alma ao vê-la fechada. Há dias, Julho de 2006, estive lá e só vi tristezas!

Foi ali que eu recebi a primeira notícia da morte de um tio que, por ondas electromagnéticas eram levadas até Soajo e depois subiam a montanha na forma de telegrama. Normalmente as notícias eram más e começavam os choros. Foi ali que chegou a notícia da morte do meu irmão num acidente militar, e foi dali que partiu para o Mundo, a mesma notícia e que o Mundo recebeu como sendo a minha morte em África.

Sim eu sou apenas o vivo que já foi chorado morto! Assim, na véspera do Terror do 11 de Setembro 2001, enquanto eu comia o bolo da pedra da saudade, eu via passar pela minha retina, todo o ambiente da antiga Tasca, das malgas cheias de vinho que circulavam de boca em boca - era a rodada (nessa altura não se temia a SIDA, nem nada de semelhante), via os cavalos chegados montanha acima, vindos de Soajo, subir os 3-4 degraus que os levava a entrar tasca dentro e também beber o seu copo, em forma de sopas de cavalo cansado!


A malguinha

Ali, se ouviam as notícias da minha gente que chegavam a França, a salto, ou dos que ficavam presos pelo caminho sem nunca terem saído de terras de Espanha! Normalmente o regresso é sinónimo de alegria, mas ali, muitas vezes, o regresso era portador de muitas tristezas. Os dinheiros gastos, e eram tão poucos, para chegar a terras de França, significavam mais pobreza, mais dívidas, maiores compromissos e significavam também passar a conhecer quão bela é a palavra solidariedade! "Não desistas, o dinheiro não te vai faltar. Pagas-me quando o tiveres"! "Ó Carrasco, enche aí a malga"! Como eram belas as gentes da minha terra! Como se sonhava! Como caminhamos todos para o precipício do Mundo, para a dispersão, para a diáspora! 

A Tasca da Saudade

  Ventor 13.08.04

Esta é a tasca da saudade. Nesta tasca já não se joga mais à sueca, à bisca ou seja ao que for! Esta foi a primeira tasca da minha vida. Aqui se jogava, se cantava, se lutava, se dizia mal da vida, se chorava e, como numa igreja, muitas vezes se gritava pela ajuda divina!

 A Loja do meu grande amigo Carrasco   

Aqui me despedi de muitos que partiram para todos os "cantos do vento". Hoje, sei que não mais verei muitos deles, outros nunca mais vi e não sei se voltarei a ver. Mas chorei ao olhar esta foto. Chorei por todos que não vão caminhar mais a meu lado!

sábado, 24 de julho de 2004

A nossa Lápide

   Ventor 24.07.04

Amigos, este Ventor tem histórias sem fim e aqui o vosso amigo Quico, tem todo o prazer em escrevê-las para vocês. Claro que eu só vos escrevo as que o Ventor me autorizou!! Esta é mais uma delas. O Ventor conta-me cada uma!! Ora vejam esta sobre este tatuzinho e os seus amigos! O ventor chama ao tatuzinho, Remúlio e à namorada Quiríula. Este Ventor adora a Lápide dos bichinhos de conta e dos seus amigos e diz-nos.

 Já conecem este amiguinho do ventor - é o Remúlio.

Junto do Ventor, passa a vida a rebolar-se e a rir! O Ventor contou-me:

«Um dia destes debrucei-me sobre um muro, na ponta do qual, se iniciam ou terminam umas escadas públicas. Ao debruçar-me sobre o muro, apoiei nele, os meus braços. Entre os braços, encontrei um bichinho de contas, um pouco atarantado, por verificar que o seu caminho fora interrompido abruptamente, por duas grandes massas, que mais lhe pareceriam umas vigas deitadas, e sobre as quais não podia trepar nem saltar, para prosseguir a sua viagem.

Tirei do bolso da camisa, um papel do Multibanco e coloquei-o por debaixo do bicho de contas que logo se enrolou e ficou sobre o papel. Coloquei-o junto à base do muro onde achei que estaria em segurança. O bichinho ficou desorientado, como tendo perdido a bússola que o orientava, no sentido que pretendia. Olhei-o e, quando dei por isso, estávamos numa espécie de diálogo de surdos, na pretensão de um entendimento galácteo».

- «Então, ó redondinho! Já não sabes o que queres? Perdeste o norte»?

- "Eu nunca perco o norte. Já não saber o que fazer é outra coisa. Fiquei atrapalhado com a tua presença. Só isso! Além disso, não sou redondinho" - disse o Quirílio!

- «Então, eu não sei o teu nome, tenho de te chamar qualquer coisa».

- "Chama-me bicho, o meu nome é só para os amigos"!

- «Está bem! Então eu digo-te o meu nome - chamo-me Ventor».

- "Ventor!!!! Disseste, Ventor"?!!

- «Sim! Sou o Ventor e não precisas ter medo de mim. Eu não tenho por costume fazer mal aos amigos, só costumo ajudá-los quando os vejo um pouco perdidos. Como raio subis-te para cima do muro, tão alto»?

- "Oh! Agora que já sei quem és, podemos conversar! Tu não gostas de subir às montanhas? Não gostas de apreciar tudo que a tua vista abarca lá de cima, paisagens, sol, lua, estrelas"?

- «Gosto muito».

- "Então eu fui acima do muro, e bem mal me vi, para controlar o meu pessoal, que um pouco desgarrado se dirige à Lápide"!

- «Estás a brincar! Eu só te vejo a ti, mas também ainda não reparei em volta»!

- "Então repara, eu vou andando. E se quiseres vem comigo, ok"?

- «Está bem, eu já volto, vou ver se vejo os teus».

"Olhei para o lado e vejo mais dois bichinhos de conta um atrás do outro. Voltei a colocar os braços sobre o muro e debrucei-me para as escadas, tropecei com a vista em mais dois! Segui até à ponta do muro, e encontrei, mais seis. Desci as escadas e ia vendo os tipinhos a subi-las, com trambolhão aqui, trambolhão ali, e lá iam subindo as escadas todas em fila indiana. Voltei a subir as escadas, e contei-os. Eram 37 a subir degrau a degrau, mais 8 onde tinha encontrado o redondinho. E segui-os todos, pensava eu, até ao canteiro de flores mais próximo na esquina do prédio. Olhei em volta, e vejo mais junto aos passeios, em volta dos canteiros floridos. No meio desse canteiro, estava um calhau, em forma de Lápide, e junto a ela o redondinho".

 O Remúlio e os amigos também moram entre as flores

 - "Ventor, este é o nosso ponto de encontro, é aqui que"... dizia o Remúlio.

- "Cala-te", - gritou uma redondinha, que se aproximava do já meu amigo. 

- "Não deves conversar com estes humanos, que são os bichos mais estranhos que podemos imaginar, apesar de não nos comerem"!

- «Este é o Ventor, que na nossa comunidade já todos ouviram falar. Com ele estamos à vontade. Foi ele que lembrou a Noé que os bichos de conta não podiam ficar para trás, senão os nossos progenitores nunca teriam sobrevivido e, por amor dele, andamos aqui, e demos continuidade à espécie que já ocupava o planeta há milhões de anos» - disse Remúlio.

- "Ventor! Ventor! Ventor"!- gritou a redondinha. "Desculpa, não te ter reconhecido! Tu és estimado por todos os que, neste mundo louco sobrevivem, e nunca és esquecido por nós, espécie de crustáceos que só fazemos bem ao homem. Este é o Remúlio, nosso Chefe, e meu namorado, já se conhecem, eu sou a Quiríula, a adjunta, os nossos amigos ..., e esta é a nossa Lápide! É aqui ... que"...

- «Deixa comigo» - disse Remúlio - «eu conto ao Ventor».

"Olho em volta, da Lápide, pelo canteiro de flores, e só vejo bichinhos de conta, que se tinham aproximado de todos os lados, direitinhos à Lápide".

- «Então diz lá Remúlio»! - pediu Ventor.

- «Bem, eu queria agradecer-te, por me teres tirado de cima do muro. Tinha subido para abarcar, do alto da minha pequenez, todos os meus amigos que fazem parte do meu mundo, e se dirigem para a Lápide. É aqui, na Lápide, sombria e húmida, que nós fazemos as nossas reuniões, fazemos as nossas festas, as nossas danças, ouvimos as nossas músicas, colhemos as pétalas das flores deste jardim, fazemos os nossos casamentos e partilhamos as nossas venturas, e as nossas desventuras. Juntos estamos sempre em festa! Aparece na nossa Lápide, sempre que passares por aqui».

- «Aparecerei, Remúlio»!

"Meti-me no carro, e prossegui, rumo a casa, e ao longo da Av. Lusíada, pensei nos meus amigos, e reparei em mais uma Lápide, esta humana, em construção, e concluí que todo aquele bulício, de gruas e homens, nada mais era que a construção da Lápide dos benfiquistas. Ali, na sua Lápide, passarão dias de tristeza e dias de glória. Continuei viagem e pensando nesta Lápide do Benfica, e na lápide dos bichinhos de conta, e noutras lápides que desfilavam pela minha memória, concluí que eu também tenho uma Lápide e, à medida que o meu carro rolava, me aproximava dela, e que nela, como os bichinhos de conta, me reúno com os meus amigos, ouvindo o que eles me contam, contando-lhe o que eles quererão ouvir, ou não, partilhando um pouco das nossas frustrações, das nossas alegrias, das nossas tristezas, das nossa músicas e das nossas venturas e desventuras».  

 No meio das flores, Remúlio, Ventor e amigos conversam com as borboletas e todos aqueles que a Natureza colocou a seu lado para partilharem a vida e a energia que o amigo Apolo, tão generosamente, distribui por todos.

https://ventorcaminhando.blogspot.com/2026/06/lago-enol-um-lago-de-covadonga-que.html

Setember Eleven

  Ventor  11.09.11 O dia que mudou o mundo e, por isso, o dia que também mudou o Ventor. Um dia que nunca devemos esquecer! Não devemos esqu...