terça-feira, 2 de junho de 2026

Tristeza

 | Ventor 01.08.05

Ela levou-me ao colo de Adrão a Soajo para me baptizar. Dizia-me a minha mãe que nunca deixou que ninguém me pegasse!! Ela aqueceu-me as mãos quando eu era criança e subíamos as montanhas atrás das vacas. Ela casou e foi para a América com o marido, quando eu vim para Lisboa. Andamos sempre afastados e só de vez em quando nos encontrávamos por aí. Nas nossas montanhas, em Adrão, na sua casa de Arcos de Valdevez.

 Ela chorou-me morto quando a sua sogra lhe telefonou a dizer-lhe: "morreu o nosso Ventor"! Era um engano. Fora o meu irmão que morreu na tropa num acidente. Ela chorou e pôs a América de Adrão a chorar por mim! Ela sempre gostou de mim e sempre dizia: "o meu Ventor"!

Ela, na foto, está feliz com o seu Bubo que eu lhe ensinei que a casa também era dele. A mesma felicidade tinha com o Max o seu cãozinho, que só passou a deixar entrar no quarto e na cama quando viu que com o seu Ventor ele também dormia na cama e era tratado como um igual!

O Bubo morreu e foi para as estrelinhas como diz a Joana. O Max está a morrer com um tumor na cabeça. Duas tristezas! Agora a tristeza é maior. Hoje a vida deu uma volta. Ela telefonou-me que os médicos lhe deram um ano de vida! Hoje apetece-me chorar! Só vejo a vida esvaziar-se à minha volta e apetece-me esvaziar uma garrafa de scotch e dormir, dormir, dormir e não pensar em nada!

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