terça-feira, 2 de junho de 2026
À Lobo
| Ventor 19.06.05
Há alguns dias atrás, ao atravessar a passadeira para peões. à minha porta, com um saco de lixo na mão, senti uma terrível pancada na barriga da perna esquerda e quase anichei no meio da via.
Tacteei mas não caí, e a primeira coisa que fiz, mal me recompus, foi olhar o estrago que o tiro fez. Para mim, a primeira impressão é que tinha levado um tiro na perna.
Ao mesmo tempo que tentava não anichar no meio da rua, olhei em volta, passeio, janelas, portas e não vi ninguém de arma na mão ao mesmo tempo que me lembrei que não ouvi tiro nenhum. Mesmo assim, baixei os olhos para a barriga da perna e a perneira das calças estava intacta. Portanto, calças sem furo, pensei, não tinha mesmo havido tiro!
Os carros que à minha esquerda tinham parado para eu passar, ficaram estupefactos a olhar-me a contorcer-me de dores no meio da via, sem capacidade para me mover. Um rapaz de mota, chegou-se pelo meio dos carros até junto de mim e perguntou-me o que me aconteceu. Disse-lhe que pensei que tinha levado um tiro na perna, mas vistas as coisas, só poderia ter sido uma pedrada. Mostrei a barriga da perna e tinha uma negra, mas dentro dela só eu percebia a severidade da pancada.O meu músculo tinha-se desarticulado.
Saí do meio da rua e, quase de rastos, lá levei o saco do lixo. Uma vizinha da janela, disse ao marido que o amigo Ventor terá tido mais um grande problema de coluna! Vim para o meu carro, para levar a minha mulher á fisioterapia e logo que ela desceu e viu a minha máscara, queria desistir, mas eu lá a levei. Afinal a dor era na barriga da perna, mas o mecanismo funcionava! Ainda arranjava forças para grunhir de dor e fazer baixar a embraiagem!
Deixei-a na fisioterapia e como ela ia ter com uma amiga para beberem o café juntas, disse-lhe que vinha para casa fazer o meu tratamento. Cheguei a casa, gelo, pomada de silício, em vez de voltaren, mais gelo, e lá vou eu a coxear até ao carro. Andei assim alguns dias e ainda não passou, mas já pareço um lobo! Já caminhei na serra de Sintra a coxear, já controlei os meus pica-paus a coxear e, já passei tardes inteiras, dentro do carro a ver esvoaçar os gaios e de vez em quando, dou urros diabólicos devido ao meu tratamento, à lobo, sempre que me esqueço do meu dói-dói!
Sempre que tive problemas fiz tratamentos à lobo. Já torci pés e fui eu que os endireitei à lobo. Quando tirava a chapa em Lisboa os especialistas ficavam parvos quando eu lhes contava as minhas histórias. Uma vez torci um pé e, mesmo assim, para não molhar os ténis no rego de regar o milho, saltei do rego da água para cima do muro ao lado. A laje dançou e eu dancei com ela e só ouvia o pé a desfazer-se todo.
Por fim, em Lisboa, na Av. Da Liberdade, três dias depois, o médico que se chama (va) Corte Real, disse-me para nunca mais lá aparecer depois de fazer tanto estrago. E não! Fiz e continuo a fazer tratamentos à lobo! Mas nunca esqueçam: ouçam o que eu digo mas não liguem ao que eu faço. Apenas me tenho saído bem. Imagino quanto sofrem os lobos, meus companheiros de Caminhada, sem assistência hospitalar, sem médicos, sem enfermeiros, ... sem nada! Mas eles comem o barro e o barro está cheio de silício. Sem saberem tratam-se, e ... bem!
Que seca!
| Ventor 14.06.05
Hoje fui a S. Pedro de Sintra beber um café e comer um travesseiro. É uma das minhas caminhadas preferidas, à sempre linda Sintra. Passei algum tempo a observar as silvas e a pensar nas amoras e no Eugénio Andrade e no seu poema sobre as amoras. Afinal, também é meu, pois ninguém mais que eu terá vivido tão intensamente as amoras das silvas.
Flores de silvas e amoras a nascer
Depois, como não podia deixar de ser, fui até à Lagoa Azul. Mal que entrei no local da Lagoa, encontrei dois GNR's a observar a água, mas de semblante triste. Olhei a Lagoa, desejei Bom Dia aos homens e disse-lhe logo: «estamos lixados»! Eles olharam-me, mediram-me, perceberam,
e o mais próximo, disse: "pois estamos"! Inteligentes aqueles GNR's!
A Lagoa estava assim
Dei a minha volta à Lagoa coxeando e assim tive mais tempo para observar os meus amigos. Dois milhafres apareceram para me dizer olá (e disseram mesmo!), mas com a fome que estavam nem me quiseram olhar mais. Os cágados sairam fora da água só para me espreitarem e dizerem-me que gostavam de me ver por lá!
Rapaziada venham ver o Ventor!
Depois foram as libélulas e os peixes. Fizeram passagens à minha volta uns e subiram quase à superfície outros..
As libélulas, eram muitas e quase todas azuis
Este amigo diz que as águas estáo paradas e já começa a faltar o oxigénio!
Mas no meio desta bicharada toda cantavam as rolas e os pombos e ouvi o mais belo de todos os sons. Quando apontava a máquina para um pombo que tinha pousado ao meu lado, num pinheiro alto, esqueci-me logo dele, pois logo por ali, ouvi um pica-pau a martelar com o bico na madeira.
Ando de volta dos ninho dos pica-paus, dois, mas já há mais de 40 anos que não ouvia o som deles na execução do seu trabalho. Uma maravilha da natureza! Ouvi o seu som de trabalho e a sua conversa comigo. Nem toda a gente conhece o som do picapau quando ele nos quer ver longe. Depois, mais à frente, já afastado da Lagoa, procurei as minhas carrascas e uma ave esvoaça sobre mim e só pelo gesto, disse logo à minha mulher: «olha para aquele pinheiro, está lá um pica-pau». Colocou-se por detrás do galho a observar-nos e depois vimos ele partir de abalada. Na minha terra só vi pica-paus verdes mas por aqui eles são brancos pretos e vermelhos como este.
Está no Site do Quico este amigo do Ventor
Dia de Portugal
| Ventor 10.06.05
10 de Junho, era o dia de Portugal!
Hoje não sei se ainda é! Sabem porque? Cada vez me parece mais o dia do "oportunismo"! Se alguém quiser fazer a retrospecção que eu já fiz, mas guardei para mim, porque senão ... Bom! Não acreditam? Podem crer! Já ouve quem ameaçasse os blogs e eu não quero fazer nada para isso.
Mas sempre poderei dizer alguma coisa! Ouço o povo na Rádio, na Televisão, na Rua, no café, ... e julgo que, pelo menos, por enquanto, só uma coisa safa a geração política que resultou da Abrilada de 1974! Sabem o que é? Adivinhem!
Se não adivinharem depois eu digo-vos! Mas temos de reconhecer que todos eles se pavoneiam sugando o suor do povo. Todos eles de um extremo ao outro, se pavoneiam enquanto apenas e só nos mataram a única coisa que ainda poderíamos ter ... A Esperança! Até essa nos levaram!
Passeio
| Ventor 10.05.05
Oportunidade única!
Num local onde, de momento, estas flores são uma pequena festa à vida, eu passei, há dias, numa das minhas caminhadas. Já há algum tempo que vivo sem música, sem flores ou com poucas e submergido numa grande tristeza. Em pouco tempo, perdi três amigos. O Quim, a Maria Luisa e o homem do Quiosque (o António), um amigo.
Partiram de rajada! O Quim e a Maria Luisa, depois de muio sofrimento. O António de repente! Eu esqueci a vontade de ouvir música, a melhor das minhas companhias. Além disso, a minha coluna não me tem ajudado muito, posso mesmo dizer nada, e tenho caminhado sobre três caminhos: a tristeza, a dor e o caminho real que piso.
Flores selvagens embandeiradas para mim
Tenho visto muitos besouros, alguns azuis, que não vejo há muitos anos, mas no meio destas flores vi o mais belo de todos! De repente, apareceu a um metro de mim, em voo parado, na vertical, estilo helicoptero e aguardou que eu ligasse a máquina e tudo, olhando-me fixamente. O seu corpo era de um amarelo dourado esbatendo para o azul e, as suas asas, eram de um azul lindo, rendilhadas por onde penetravam os raios luminosos do meu amigo Apolo.
Falei para ele, chamei-lhe coisa linda e pedi-lhe para aguentar aquele voo parado, enquanto ligava a máquina e me preparava para o fotografar. Quando me preparava para disparar ele arrancou rumo a ocidente de encontro ao sol, vestindo cores fabulosas! Nessa mesma tarde, arrastando-me, fui três vezes àquelas flores mas nunca mais vi aquela maravilha de insecto.
Agora estou pelo beicinho para apanhar aquela maravilha. Será que voltarei a vê-lo? Depois de pensar bastante, até me parece que aquele insecto foi uma mensagem a dizer-me que o mundo é lindo e devemos estar aptos a caminhar nele e com ele, abandonando as forças negativas que tentam apossar-se de nós!
segunda-feira, 1 de junho de 2026
Tudo o Vento Levou
| Ventor 14.02.15
Se não for o vento é o tempo e se não for o tempo é o vento. Tudo se vai!
Também podem ser as rémiges!
Há dias, estive a observar o meu amigo Pingas, o cisne que foi por anos, meu companheiro de algumas caminhadas. Ele caminhava sobre as suas amarguras e auscultava a melodia das águas, no ciclo do seu tempo. Como sempre, ele observava-me e dava ao rabinho para demonstrar a sua alegria com a minha presença.
Uma das últimas fotos que tirei ao meu amigo Pingas
"Hoje não trouxe a máquina, Pingas, mas um dia destes venho cá para te tirar algumas fotos".
«Não vais não, Ventor, estou a preparar-me para abandonar esta prisão sem grades. As grades são as minhas rémiges mas, se eu conseguir distrair esses gajos e as minhas rémiges me colocarem no ar, com a ajuda do vento, eu farei o resto.
Quando eu desalojava os meus filhotes do lago, no outro sítio, fazia-o porque nós, os cisnes, colocamos os filhos fora de casa mas, eu, Ventor, fazia-o com mais afinco. Queria-os fora desta prisão que os homens me destinaram. Queria os meus filhos longe dela!
Agora, Ventor, depois de perder a minha companheira, não mais deixei de ser um cisne moribundo a deslizar sobre as águas do rio.
Não digas a ninguém, Ventor, mas eu sinto que as minhas rémiges vão salvar-me os últimos anos da minha vida se tiver alguma sorte».
Isto foi em meados de Janeiro. Voltei uns dias depois e vi, por entre os choupos, aquele grande penudo a deslizar nas águas frias deste inverno. Há uma semana, voltei a procurar o meu amigo e fui logo atingido pela amargura da incerteza. Dirigi-me aos guardas do jardim e disseram-me que o Pingas, o velho amigo do Ventor, tinha fugido. Desapareceu, simplesmente.
Outra das últimas fotos do meu amigo Pingas, cerca de 4 meses antes de desaparecer
Perguntei a algumas pessoas e disseram-me que ele voava imenso, rio abaixo e rio acima, exercitando-se, tal como os patos reais e, de um dia para o outro deixaram de o ver.
Oxalá que o meu amigo Pingas tenha tido muita sorte, que encontre o seu lago de sonhos, onde os cisnes e outros seus companheiros de caminhada, vivam em paz, sem serem molestados pela podridão humana. Onde as flores enfeitem as suas margens e todos juntos se espreguicem nos ares límpidos matinais, recebendo juntos e em paz, a chegada do nosso amigo Apolo.
Todos temos sonhos. Porque não haverá um cisne de sonhar? Porque não posso eu sonhar que o meu amigo Pingas ainda venha a encontrar, no fim da sua vida, um pouco de felicidade?
Espero que tenha sido assim, Pingas, que estendas as tuas rémiges e que os ventos te levem pelos teus espaços de liberdade. Tu foste das coisas mais lindas que eu encontrei na Amadora.
Nunca irei esquecer o teu pedido de ajuda para passares para o outro lado da sebe, onde se encontrava a tua companheira e os teus quatro filhotes e a alegria com que me agradecias a ajuda que te tinha dado.
Até sempre, amiguinho branco. Que o Senhor da Esfera te dê alguma felicidade porque todos os animais também merecem ser felizes.
A Caminhada do Tomás
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